Mussomeli, cidade de pouco mais de 10 mil habitantes na Sicília, já vendeu 550 casas por 1 euro cada desde que abriu seu programa. É a maior operação do tipo em toda a Itália, mas está longe de ser a única: mais de 70 municípios espalhados pelo país, a maioria no Sul e nas ilhas, ainda vendem imóveis abandonados por valores simbólicos em 2026.
O problema é que quase ninguém fala sobre o que vem depois do 1 euro. Neste guia você vai ver como o programa funciona de verdade, quanto custa reformar, quais cidades ainda têm vagas abertas e o que um brasileiro precisa organizar, incluindo tradução juramentada, para fechar negócio sem susto.
O 1 euro é só o preço do imóvel. Para fechar negócio você também paga caução (geralmente entre 2.000 e 5.000 euros, devolvida se a reforma for concluída no prazo), taxas de cartório e imposto de registro, além do custo da própria reforma, que costuma ficar entre 20.000 e 70.000 euros.
Brasileiros podem comprar sem restrição de cidadania, graças à reciprocidade entre Brasil e Itália. Mas a compra do imóvel não dá direito a visto, residência ou cidadania italiana automaticamente.
Como funciona o programa "casa a 1 euro" na Itália
O programa nasceu para enfrentar um problema concreto: o esvaziamento de pequenos municípios do interior, sobretudo no Sul da Itália e nas ilhas, onde gerações mais jovens migraram para cidades maiores e deixaram para trás casas de pedra que se deterioram há décadas nos centros históricos. Em vez de deixar esses imóveis caindo aos pedaços, prefeituras negociam com os antigos proprietários (ou herdam o imóvel via doação) e colocam as casas à venda por um valor simbólico, geralmente 1 euro, em troca de um compromisso: quem compra se obriga a reformar dentro de um prazo determinado.
Na prática, o processo costuma seguir esta sequência: cadastro no site da prefeitura ou em plataformas como Case a 1 Euro e Renovita, escolha do imóvel disponível, envio de uma proposta com plano de reforma, assinatura de um contrato preliminar (o chamado compromesso), pagamento da caução e, por fim, a escritura definitiva com um notaio. Alguns municípios fazem leilão aberto para os imóveis mais disputados, o que pode elevar o valor final bem acima do 1 euro nominal, como aconteceu em Sambuca, que virou notícia internacional por causa da fila de interessados.
Quanto custa de verdade comprar uma casa de 1 euro
| Etapa | Valor estimado |
|---|---|
| Preço do imóvel | 1 euro (pode subir em leilões disputados) |
| Caução (fideiussione) | 2.000 a 5.000 euros, devolvida se a reforma for concluída no prazo |
| Cartório e registro (notaio) | 1.000 a 5.000 euros |
| Imposto de registro (imposta di registro) | a partir de 1.000 euros para segunda casa |
| Impostos hipotecário e cadastral | 50 euros cada |
| Reforma | 20.000 a 70.000 euros, conforme o estado do imóvel |
| Total realista | geralmente entre 25.000 e 80.000 euros |
Os valores de cartório costumam pesar mais para quem compra do exterior: documentação extra, procuração e, claro, tradução juramentada de tudo o que precisa circular entre Brasil e Itália entram na conta. É um detalhe que a maioria dos sites sobre o tema simplesmente não menciona.
Prazos e regras da reforma: o que acontece se você não cumprir
A parte da reforma é onde o programa mais aperta. O padrão em boa parte dos municípios é: até 1 ano para apresentar o projeto de reforma à prefeitura, até 2 meses para começar a obra depois de aprovado o alvará, e até 3 anos, contados da compra, para concluir tudo. Descumprir o prazo tem consequência real: o mais comum é perder a caução; em regras mais rígidas, a prefeitura pode retomar o imóvel.
Nem todo lugar segue a mesma fórmula. Cinquefrondi, na Calábria, cobra uma taxa anual bem menor em vez de um depósito único. Laurenzana, na Basilicata, dispensa caução. Já Mussomeli exige um depósito fixo de 5.000 euros com validade de três anos. Antes de se animar com um imóvel específico, vale a pena confirmar essas regras direto com a prefeitura, porque elas mudam de cidade para cidade e não existe um regulamento nacional único.
Quais municípios ainda vendem casas a 1 euro em 2026
| Região | Município | O que saber |
|---|---|---|
| Sicília | Sambuca | Um dos primeiros a promover o programa; ficou mundialmente conhecido em 2019 |
| Sicília | Mussomeli | Líder nacional, com 550 imóveis já negociados |
| Sicília | Cammarata | Parte do grupo de cerca de 30 municípios sicilianos com programa ativo |
| Sicília | Bivona | Também na província de Agrigento, com editais abertos em 2026 |
| Sardenha | Ollolai | Um dos destinos mais procurados por compradores estrangeiros |
| Lácio | Patrica | Programa ativo na região central da Itália, perto de Roma |
| Campania | Zungoli | Pequeno município na província de Avellino |
| Puglia | Taranto | Foco em regeneração urbana do centro histórico, não só casas isoladas |
| Piemonte | Carrega Ligure | Um dos municípios mais remotos do programa, no norte da Itália |
| Toscana | Fabbriche di Vergemoli | Programa ativo na região da Garfagnana |
A Sicília concentra o maior número de programas ativos, com cerca de 30 municípios. Fora dela, a lista muda com frequência: um edital que está aberto hoje pode fechar em poucos meses, e vice-versa. A prefeitura é sempre a fonte mais confiável, mais do que qualquer blog, incluindo este.
Quem pode comprar: brasileiros e outros estrangeiros
Brasileiros podem comprar imóveis na Itália, incluindo casas de 1 euro, sem precisar de cidadania italiana. Isso vale pelo princípio da reciprocidade: como a Itália permite que italianos comprem imóveis no Brasil, o Brasil tem o mesmo direito garantido lá. Na maioria dos programas municipais não existe restrição de nacionalidade para participar, e boa parte dos compradores desses editais já são estrangeiros.
Aqui vale um ponto que costuma gerar confusão. Comprar a casa não dá direito a visto, residência ou cidadania italiana automaticamente. Quem quer se estabelecer na Itália por meio dos antepassados precisa seguir o processo de cidadania italiana separadamente, reunindo certidões de nascimento, casamento e óbito dos ascendentes. Muita gente que compra uma casa de 1 euro está justamente nessa fase, usando o imóvel como base para se instalar depois que a cidadania sai, mas são dois processos distintos que só se cruzam na papelada.
Documentos que precisam de tradução juramentada
Todo documento brasileiro que vai ser apresentado ao notaio, à prefeitura ou ao cartório de registro imobiliário italiano precisa estar traduzido por um tradutor juramentado, e frequentemente também apostilado. Os mais comuns nesse tipo de compra são:
- Certidão de nascimento (e de casamento, se for o caso)
- Comprovante de renda ou declaração de imposto de renda, exigido por alguns municípios e cartórios
- Procuração, para quem não vai estar presencialmente na Itália durante todo o processo
- Contrato preliminar (compromesso) e escritura de compra e venda, quando precisam circular entre os dois países
- Certidões dos ascendentes italianos, para quem está conduzindo o processo de cidadania em paralelo
- Fideiussione
- Caução ou garantia bancária que assegura que a reforma será feita dentro do prazo combinado
- Imposta di registro
- Imposto pago no registro da compra, com valor mínimo de cerca de 1.000 euros para segunda casa
- Notaio
- Tabelião italiano; presença obrigatória para lavrar a escritura definitiva
- Geometra
- Técnico que avalia o estado do imóvel e acompanha o projeto de reforma junto à prefeitura
- Compromesso
- Contrato preliminar assinado antes da escritura final, já com sinal e condições da venda
- Procura speciale
- Procuração usada por quem não pode estar presente na Itália durante o processo
Vale a pena? Prós e contras realistas
O programa não é golpe. É uma política pública real, pensada para repovoar cidades que estavam esvaziando, e milhares de imóveis já mudaram de mãos dessa forma. Mas também não é para quem só quer "casa de graça" sem capital disponível. Vale pesar os dois lados antes de se animar com as fotos do imóvel.
A favor: o valor de entrada é baixo, o que reduz o risco inicial de quem quer testar a ideia de ter um imóvel na Europa. O processo de compra em si não exige cidadania nem visto. E, para quem gosta de reformar com calma, é uma chance de reconstruir um imóvel histórico do zero, geralmente em regiões bonitas e com custo de vida bem menor que o de grandes cidades italianas.
Contra: a reforma é cara e o prazo aperta quem não tem o dinheiro guardado de antemão. Muitos imóveis estão em estado pior do que as fotos sugerem, com problemas estruturais que só aparecem depois da vistoria de um geometra. As cidades costumam ser pequenas, com pouca oferta de emprego e serviços, o que pesa para quem pensa em morar ali em tempo integral. E conduzir tudo à distância, com procuração e documentos traduzidos indo e voltando, exige organização que nem todo mundo tem paciência de manter por três anos seguidos.